E A QUESTÃO DA SOCIALIZAÇÃO?

Eu pensava que há muito havíamos perdido a preocupação sobre as crianças que aprendem fora da escola, e a questão da socialização. Porém, nas últimas duas semanas, fui questionada sobre como essas crianças “se socializam”, tive uma repórter me dizendo intencionalmente que as crianças educadas em casa se tornam “excessivamente dependentes” do pai, ou da mãe que fica com eles; e li um demasiado número de comentários no blog sugerindo que nossas crianças se tornarão imbecis disfuncionais se não freqüentarem a escola.

 

Sempre que alguém me pergunta sobre a socialização dos que não vão à escola, eu respondo levantando algumas questões a respeito da escola. Utilizar o questionamento para avivar a percepção de que a escola não é tudo aquilo que se imagina, ou como deveria ser, e que o experimento escolar está, de fato, falido, é uma maneira produtiva de inverter a conversa e encorajar as pessoas a pensarem mais abertamente. (Quando sujeitada a algum grupo de sabichões, eu prefiro não discutir). Eu faço perguntas como estas:

  • Quanta socialização as crianças realmente recebem na escola?
  • Qual é a qualidade da socialização na escola comparada com o que está disponível fora dela?
  • O intercâmbio verbal livre é permitido entre os alunos, ou a ênfase está em que permaneçam quietos?
  • As experiências de aprendizado em conjunto são uma atividade regular na escola, ou é mais eficiente para o professor falar enquanto os alunos escutam?
  • As crianças pequenas têm a chance de interagirem com outros grupos, gênero, e raças, ou as panelinhas e o bullying (intimidação) predominam?
  • As habilidades de fala recebem  tanta atenção quanto as habilidades de escuta?
  • Como o regime escolar incentiva o pensamento criativo?
  • A obrigatoriedade auxilia ou atrapalha uma compreensão sobre  a democracia?
  • Como a padronização contribui para a construção da auto-estima?
  • A falta de confiança do sistema nas crianças atrapalha o desenvolvimento da autoconfiança?
  • Como as pessoas aprendem a se auto-regularem sem uma prática?
  • Voluntarismo obrigatório cria cidadãos envolvidos e compassivos, ou apenas ressentimento?
  • A sala de aula típica dos nossos dias prepara os alunos para empregos desejáveis no futuro?

 

Tudo bem, é certo que algumas das questões entregam a minha parcialidade! Mas existe muita pesquisa para apoiar a minha tendência… e também a LifeLearnigMagazine.com 18

 

QUESTIONANDO A SOCIALIZAÇÃO

O que queremos dizer quando utilizamos o termo “socialização” no  que diz respeito a crianças que freqüentam ou não a escola? E, que tipo de socialização realmente queremos para nossos filhos… se é que queremos alguma?

Por Wendy Priesnitz

SOCIALIZAÇÃO ESCOLAR

De acordo com a psicóloga ambiental Maxine Wolfe, o problema envolve tanto o ambiente físico da escola típica, quanto as maneiras condicionadas de os adultos se relacionarem com as crianças. No seu trabalho entitulado Institutional Settings and Children´s Lives : An Historical,Developmental and Environmental Perspective on Educational Facilities  (Os Ambientes Institucionais e a Vida das Crianças: Uma Perspectiva Histórica, Desenvolvimentista e Ambientalista das Instalações Escolares ) (apresentado no Congresso Internacional sobre Instalações Escolares Edusystems 2000), ela descreve o seu estudo de vinte anos sobre o uso dos espaços e práticas educacionais numa variedade de escolas com diferentes filosofias educacionais. Ela escreve “A vida diária nas escolas é uma série invariável de eventos que ocorrem numa repetição infinita de lugares semelhantes, construídos sobre uma grade de horários inflexível, todos definidos  por alguma fonte de poder externa . Os objetivos norteadores destes ambientes tomam precedência sobre as crianças como pessoas… A espontaneidade é vista como impulsividade , como perturbadora dos planos vigentes, e como dispensáveis se comparados com objetivos educacionais mais importantes…” e “ A vida para as crianças  na escola é pública. Elas recebem virtualmente nenhum tempo ou espaço para o qual os adultos sejam negados acesso…” A privacidade é tão antiética para os objetivos institucionais de ordem , controle, e sociabilidade forçada , que as tentativas das crianças de buscarem privacidade são definidas  como um problema delas… Crianças que encontram privacidade psicológica sonhando acordadas são rotuladas como desatentas ou desinteressadas.

 

 

A SOCIALIZAÇÃO FORA DA ESCOLA

Em contraste, as situações da vida real são muito mais ativas e positivas. E, livres da segregação em guetos de idade, as crianças passam tempo com outras mais jovens e mais velhas, assim como uma variedade de adultos dentro da família e na comunidade O psicólogo desenvolvimentista e social Dr. Urie Bronfenbrenner da Universidade Cornell, no seu livro Two Worlds of Childhood, U.S and U.S.S.R. (Dois Mundos da Infância, E.U.A, e U.R.S.S) diz que as crianças mais jovens podem  se beneficiar amplamente  do modelo e apoio resultantes dos relacionamentos com crianças mais velhas, mas lamenta a falta de tais oportunidades no sistema educacional do mundo ocidental.

Uma das críticas relacionadas à socialização que eu mais escuto é que as crianças devem ser empurradas para fora do ninho cedo para que possam aprender a voar sozinhas. Alguém já deve ter lhe falado para cortar o proverbial cordão umbilical, ou as alças do avental, para deixar o seu filho ir para o mundo e ficar forte.

Não sei de onde surgiu essa idéia infeliz, a não ser pela conveniência dos pais. De fato, sentimentos de segurança e autoconfiança são mais bem desenvolvidos quando as crianças têm a liberdade de incursionarem em situações sociais sofisticadas, no seu próprio ritmo.

A interação com pais amorosos (ou outros cuidadores primários) que as respeitem, é um dos principais ingredientes no seu desenvolvimento social, muito mais importante do que a contribuição de uma vida social plena para ajudar as crianças a funcionarem bem na sociedade. Como todas as outras coisas que se aprendem pela vivência, elas encontrarão seu próprio nível de conforto ao explorar o mundo, e seu próprio equilíbrio entre tempo passado em público ou privado.

Em contraste a isto, Brofenbrenner cita uma pesquisa que descobriu que a freqüência obrigatória à escola tem um efeito terrivelmente negativo na aquisição do autovalor. Os pesquisadores aparentemente descobriram que oitenta por cento dos alunos que ingressam na escola se sentem bem consigo mesmos; quando chegam à quinta série, apenas vinte por cento mantiveram aquele autovalor positivo; quando chegam ao ensino médio, apenas cinco por cento ainda detém um autovalor positivo.

Em seu próprio trabalho, ele associou a falta de auto-estima resultante da institucionalização pré-matura, a uma crescente dependência do grupo. Ironicamente, aprender a suportar as pressões do grupo, assim como muitos outros aspectos negativos da vida, é um dos argumentos que as pessoas utilizam em favor da institucionalização cedo!

Há muitos anos, um diretor de escola me perguntou: “- Como as suas meninas aprenderão um dia a lidar com a pressão do grupo, limites de tempo, restrições, e frustrações se você privá-las destes aspectos generalizados da vida diária?” Existem duas respostas para esse comentário bastante infeliz sobre a vida. Em primeiro lugar, as escolas não detêm um monopólio sobre a pressão, limites de horário, e frustração. Aprendizes da vida vivem no mundo real, que pode oferecer a sua própria parcela de altos e baixos. Em segundo lugar, se a vida adulta é realmente tão ruim, talvez a melhor preparação para ela seja uma infância positiva. Se nossas crianças, de fato, possuem uma vida de frustrações e limitações pela frente, possivelmente uma criação não frustrante irá prepará-las para serem adultos pacientes. O que o diretor realmente está sugerindo é que uma experiência ruim é uma boa preparação para outra experiência ruim. Como John Holt uma vez colocou, essa linha de pensamento significa que uma vez que os adultos experimentam muita dor de cabeça, deveríamos expor as cabeças das nossas crianças ao vício diariamente para que possam estar preparados para sentir como se sente um adulto.

 

MAS ESPERE UM MINUTO!

O diretor da escola estava certo quando disse que a socialização é o processo através do qual nós humanos adquirimos as habilidades necessárias para sermos membros funcionais da sociedade.

E até aí está tudo bem, se você está feliz com o status quo da sociedade. Este seria o status quo que envolve as guerras, o estupro, o ódio fundamentalista, a competição desmedida, a ganância corporativista, misoginia, apatia, adultério, racismo, classicismo, materialismo, egoísmo…

Eu não estou satisfeita com isso. De fato, quando as minhas filhas nasceram, me dei conta de que eu queria que elas vivessem num mundo muito diferente… E que, em conjunto com cada indivíduo no planeta, eu tinha o poder de criar esse mundo diferente, e ajudá-las a fazerem o mesmo. Assim, um dos principais motivos por que eu e Rolf decidimos que nossas crianças cresceriam sem a influência da escola foi o medo de que elas fossem socializadas nas maneiras da cultura de massa, em vez de permitir que desenvolvessem as ferramentas para modificar essa cultura.

Naturalmente, muitos reformadores educacionais acreditam que eu esteja errada nesse ponto, que o ensino escolar seja a melhore maneira de concertar as coisas.  Supõe-se que a escola seja o local onde uma década ou duas de estudo e interações com aquelas raças diversas e aulas nos preparem para os deveres e privilégios da cidadania adulta, e garanta a competência social e a maturidade. Mas, como já escrevi diversas vezes, essa crença utópica simplesmente não é a realidade. A democracia é mera teoria a não ser que a estejamos vivendo. E uma criança que freqüenta a escola de forma obrigatória , com pouca ou nenhuma palavra sobre o que vai ser estudado e quando, não é uma experiência de democracia. De fato, existe um crescente corpo de pesquisa indicando que, mais do que prover cada criança com oportunidades iguais, o sistema perpetua o status quo: com pouquíssimas e notáveis exceções, as crianças que ingressam no sistema pobres terminam pobres, com muitas desistindo no meio do caminho.

Assim, perceber que a socialização, segundo o termo utilizado pelos sociólogos, antropólogos, políticos e educadores, se refere ao processo de herdar as normas sociais , costumes e ideologias, eu questiono se a socialização é sequer desejável. Talvez ela proporcione às nossas crianças as habilidades e hábitos necessários para participarem da própria sociedade em que vivem, ou talvez não, desde que a sociedade está evoluindo rapidamente esses dias. O que ela não faz muito bem é provê-las das ferramentas que necessitam para melhorar a sociedade, ou elas mesmas.

Ambas minhas filhas autodidatas posteriormente experimentaram o ensino médio. Elas se saíram bem academicamente, porém não se encaixaram, na maior parte por que consideravam os adultos como iguais, e não encontram seu “lugar” naquele ambiente. Elas ficavam chocadas com a falta de respeito pelos jovens, a manipulação, e os jogos de poder. Ficavam surpresas com as injustiças que observavam, as quais os outros ignoravam ou nem sequer percebiam. Expor seus pensamentos abertamente, e desafiar coisas que consideravam erradas atraíam muitos olhares atravessados. Enquanto eram capazes de competirem com seus colegas, elas se questionavam por que a competição desempenhava um papel tão importante na educação.

Deste modo, quando me questionam sobre a socialização e o aprendizado auto-dirigido, eu pergunto de volta: Você está confortável com um futuro coordenado por estacas quadradas, desenhadas para se encaixarem em buracos quadrados, ou por pensadores criativos e robustos que visualizam uma realidade social mais humana, justa e democrática.

 

 

 

Wendy Priesnitz é a fundadora e editora da revista Life Learning.

  Editor da revista Natural Life; autora de dez livros, três dos quais são sobre aprendizagem natural; e é mãe de duas filhas com idades 37 e 39. Ela se considera uma agente de mudanças.

Você pode ler a sua biografia complete no seu blog, e outros escritos em

www.WendyPriesnitz.com. - LL -

LifeLearningMagazine.com

3 Comentários

  1. Gente querida,

    Estou muitíssimo emocionada com a iniciativa de vocês.
    Ficou tudo lindo mas, o mais importante, cheio de coisas pra nos fazer aprender.
    Como vocês sabem, sou uma pessoa que passou 90% da vida dentro de instituições de ensino. E que precisou receber uma filha pra começar a questionar se esse é realmente o melhor lugar pra se passar a vida. Mal comecei a me questionar e já tenho a resposta: não, não é. Mas não sei ainda como fazer diferente. E estou buscando muito aprender uma nova forma de educar minha filha que não seja deixando a cargo das instituições. Reconhecer isso já foi um grande passo pra mim. Acredito que daqui pra frente é ler mais e aprender. O importante é que estou de peito aberto pra receber o aprendizado sobre isso. E é por isso que quero agradecer a vocês por essa iniciativa. Esse site vai preencher meus horários de leitura em busca de fazer diferente.

    Muito obrigada

    Grande beijo

    Ligia, mãe da Clara, 1 ano e 16 dias

  2. Ola Janaina. Estou aqui tentando entender qual é a proposta concreta que vc sugere de educação. Eu também acredito que a escola como ela esta hoje (sobretudo no Brasil) deve ser repensada, reavaliada, reestruturada e ja faz tempo. Mas ainda acredito que a sociedade não possa existir sem ela. Entretanto, como sou estudante da area (estou fazendo doutorado em educação) eu me interesso por outras propostas. Nesse sentido, procurei entender pelos posts site como é que vc imagina essa educação sem escola. As crianças aprenderiam o que e com quem? Porque a questão da socialização não me parece pertinente realmente. A socialização não depende da escola. Agora o acesso ao conhecimento para além das experiências e trocas que o acaso nos traz, geralmente depende da escola. Ou de estruturas paralelas (a escola de musica, de esporte, de linguas). Dentro dessa sua proposta como fica o acesso ao conhecimento cientifico por exemplo? De que forma os pais poderiam propor um mundo de conhecimento que escapa às suas proprias formações e experiências?
    Obrigada!

    • Olá Adriana, concordo com você que a sociedade como a conhecemos depende totalmente da existência da escola, a ausência da mesma exigiria uma profunda mudança em tudo o que conhecemos, e em tudo o que fazemos. A nossa proposta não é de uma mudança social, apenas a reflexão e a perspectiva para os que estão dispostos a mudarem suas próprias vidas, já que a educação sem escola depende plenamente da participação da família e da comunidade. A prática do” unschooling” já existe de forma regulamentada em alguns países. Nesse tipo de educação, não existe a obrigatoriedade da freqüência a alguma instituição, nem o seguimento de algum programa educacional, a criança é guiada por seus interesses e características inatas de sua personalidade, e cabe aos pais proporcionar que os conhecimentos sejam aprofundados nessas áreas. A jornada de conhecimento depende da dedicação autêntica de algum adulto, é claro, e muitos pais se vêem lançados a um novo mundo de descobertas, onde precisam também serem reeducados. No caso do conhecimento para além das trocas casuais, existe uma variedade infinita de fontes em qualquer área que devem ser conhecidas e exploradas. Eu não sou radical em sugerir que não exista instrução em absoluto.Mas acho o tipo de instrução pode ser escolhido, por exemplo existem diferentes formas de ser aprender um idioma, digo isso como professora, que variam de experiências no exterior, jogos, vivências. O mesmo se aplica a outras áreas, como o esporte, que se aprende na prática. Na minha opinião o conhecimento científico deveria ficar reservado àqueles que realmente se interessam pela ciência e que desejem seguir carreira, e não deveria ser obrigatório. O acesso jamais deveria ser negado, porém nunca deveria ser forçado ou acontecer por meio de coação. Pelo que temos estudado, vimos que as pessoas aprendem quando estão dispostas e maduras para adquirir determinado conhecimento.Somos indivíduos e no campo da educação acredito que a individualidade deva ser levada ao seu ponto máximo, assim cada um poderá viver plenamente suas potencialidades.
      Como a maioria de nós não está preparado para assumir a responsabilidade total pela educação de nossos filhos, também estudamos a criação de espaços dedicados ao saber, que possam abrigar as crianças, o materiais didáticos e atividades em grupo. Esses espaços devem ser coordenados pelos pais, devidamente organizados, e compreende também a perspectiva de uma vida comunitária, com práticas e valores que sejam compartilhados pelos que se propõem a esta vivência de mudança, pela integridade de nossas crianças.

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