Encontro de Crianças Pela Paz

O encontro de crianças pela paz, não é controlado pelos pais, pois não as enxergamos como seres indomados e descolocados, que necessitam de nossa orientação e interferência constantes para saberem como devem se comportar. Ao contrário, acreditamos na sua capacidade inata para o bem-estar, para o entendimento e, para os relacionamentos pacíficos. Substituímos o olhar desconfiado e espreitador, que busca a todo o momento ser indispensável para a “boa” conduta de nossos filhos, por um olhar confiante, observador e passivo. Entregamos a elas a chave de seu próprio destino, e o que se revela são mestres na arte da convivência.  Descobrimos, para nosso espanto inicial, que na maioria das situações, temos muito mais para aprender do que para ensinar. Quem somos nós, filhos de uma sociedade hipócrita e controladora, para querer ensinar a alguém a arte convivência pacífica? Nesse aspecto, confio muito mais naqueles que até hoje tiveram a menor influência social possível. Na maioria das vezes que tentamos mediar conflitos entre as crianças, acabamos tornando maior o descontentamento. Impedimos eles de acharem soluções por  si, e impomos nossas crenças sobre que é certo e errado, geralmente frustrando alguma das partes.

Tenho percebido que as brigas, os choros e os desentendimentos se agravam quando sofrem influência dos nossos medos, inseguranças e falsas certezas sobre justiça. Somos incapazes de nos comunicarmos ao nível do coração, colocamos nossa mente em ação e roubamos das crianças o aprendizado e a capacidade de se auto-regularem, o que elas são capazes de fazer quando livres das nossas angústias e condicionamentos.

Ultimamente venho observando o quanto as crianças tem a ensinar sobre o compartilhar, sobre o amor e doação incondicionais. Essa sabedoria nasce com elas, não é preciso ensinar-lhes.

Vejo que muitos conflitos são acentuados, por exemplo, quando tentamos persuadi-las a “dividir” algum brinquedo. Sempre ouço pais e mães bem-intencionados na tentativa de ensinar aos seus filhos/filhas esse valor tão prezado em nossa sociedade, manipulando as crianças antes que as mesmas se sintam maduras para praticar tal conveniência. Eu entendo por que elas muitas vezes são incapazes de atender a súplica dos pais. “Dividir” é um desses conceitos infelizes que nós, por pura inocência ou plácida ingenuidade insistimos em reproduzir. Dividir significa fragmentar um objeto em partes iguais e distribuí-las, onde o que resta são pedaços, e não mais o todo interessante. Pergunto-me, como podemos esperar que alguém aceite isso naturalmente? “Minha filha, você precisa dividir a sua boneca.” Imagino a menina neste caso tão chocada quanto eu frente à perspectiva de ter o seu brinquedo despedaçado. Quando simplesmente removemos a pressão da expectativa de cima delas, descobrimos crianças infinitamente capazes de COMPARTLHAR. Vejo como as mesmas se sentem bem diante desse conceito, como desfrutam a união e a troca, livres de qualquer coação por parte dos adultos. Isso tudo, ressaltando, quando a criança se sente pronta e à vontade. Em muitos casos pode haver uma indisposição por diversos motivos referentes à fase cognitiva e ao momento em que a mesma se encontra, e essa indisposição deve ser totalmente respeitada. “Ah, você não quer compartilhar seu brinquedo agora, tudo bem! Quando se sentir segura você certamente o fará com prazer.” É uma postura livre da vontade de satisfazer as expectativas sociais,  que respeita e ampara bastante a criança na formação de sua individualidade. Tudo o que precisamos é oferecer amparo, e saber não exigir nada em troca.

Assim, nos encontramos e desfrutamos  de momentos maravilhosos de muita paz  alegria e descobertas acompanhados de nossas crianças de diversas idades, que uma vez bem cuidadas, descansadas e alimentadas, transformam uma tarde num mundo de fantasia onde todos se ajudam, todos interagem, elas se regulam e resolvem seus conflitos com sabedoria. Para nós, pais e mães tão dedicados, aproveitamos esses momentos em que somos tão desnecessários para também compartilharmos nossas experiências, conversar, comer, rir, cantar, jogar tarô, sem nada ter para se preocupar. Tudo o que emana é uma luz intensa de paz.

 

 

 

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